Crise acelera venda de carros usados, e demanda aumenta 4,1%

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Procura por carros zero cai 22%, com juro mais alto e crédito mais restrito

SÃO PAULO e RIO – Com juros mais altos, crédito restrito e sem perspectivas de que a economia volte a crescer no curto prazo, o consumidor está optando pelos “seminovos” na hora de trocar de carro. As vendas de automóveis novos despencaram 31,82% em setembro, em relação ao mesmo mês de 2014. É o pior desempenho para um mês de setembro desde 1998. No ano, a retração chega a 21,73%. Na contramão, o mercado de usados cresceu 4,1% este ano e deve terminar 2015 com expansão de 4,5%, diz a Fenauto, associação que representa o setor. Já Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) prevê queda de 23% nas vendas de zero quilômetro este ano.

— No segmento de automóveis com tempo de uso entre um e três anos, o crescimento das vendas é de 39%. O setor de seminovos não pode reclamar — diz Ilídio dos Santos, presidente da Fenauto.

Em setembro deste ano, foram vendidos 192.610 automóveis e veículos comerciais leves zero quilômetro. Já no mercado de usados, as vendas em agosto, dado mais recente, chegaram a 1,16 milhão de unidades. Nos oito primeiros meses de 2015, as vendas de usados somam 8,8 milhões de veículos, frente ao 1,8 milhão de automóveis novos comercializados entre janeiro e setembro.

— Este é o ano dos seminovos, e 2016 também será — afirma Raphael Galante, consultor da Oikonomia, especializada no segmento automobilístico.

DISPUTA DE PREÇOS

Ele prevê que a venda de veículos na faixa de um a três anos de uso pode aumentar de 10% a 12% em 2016, mesmo após o salto deste ano. Isso porque, diz, mesmo com a economia ruim, os compradores estão no mercado. E, para driblar os preços altos do carro zero, procuram um carro mais novo, só que usado. Foi o que fez o auxiliar de enfermagem Renato Sampaio, que estava fechando uma compra ontem, numa loja do Rio.

— Eu não teria condições financeiras de comprar um carro zero. Por causa do valor das prestações, optei por seminovo.

Segundo Galante, os carros novos subiram entre 5% e 7% este ano, apesar das vendas em queda. Já a Fenauto diz que o preço dos seminovos ficou praticamente estável. Como não existem dois carros usados iguais, mesmo da mesma marca e modelo, especialistas dizem que as tabelas de preços existentes no mercado são apenas referência. A variável é a conservação.

Santos, da Fenauto, lembra que, entre as vantagens de comprar um carro com um ou dois anos de uso, há a garantia de pelo menos seis meses da loja, além da garantia da fábrica, já que muitas estenderam esse prazo para cinco ou até seis anos.

Ainda segundo a Fenauto, hoje, apenas 35% dos carros usados são financiados. Outros 5% saem através dos consórcios, e o restante é pago à vista, com o veículo antigo do consumidor entrando como parte do pagamento. O prazo médio de financiamento fica em 40 meses, e os juros mensais variam entre 1,8% e 2%. Para os carros novos, segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), as taxas estão em 1,8%.

Em São Paulo, muitas concessionárias que antes só tinham carros novos nas vitrines estão fazendo um mix com os usados.

— Os estoques de carros novos não estão girando. O que vende é o seminovo e, por isso, há uma exposição maior nas concessionárias. Até porque a margem dos usados está maior do que nos carros zero, que, para terem saída, precisam ter descontos elevados — diz Galante.

As concessionárias do Rio confirmam recuo na venda de carros novos. Na Azurra, revendedora Fiat, a demanda por veículos zero já chegou a recuar 20% este ano.

— Hoje, estão 10% abaixo do ano passado. Estamos fazendo um forte trabalho de promoção, sendo mais flexíveis nas negociações — conta Ruy Pondé, diretor comercial da Azurra.

OFICINA MAIS CHEIA

Com menos pessoas comprando um carro novo, continua ele, caiu a disponibilidade de veículos usados no mercado, o que pode pesar na percepção de aumento da demanda nesse segmento.

Cláudio Vieira, gerente do grupo Viamar, da Chevrolet, vê mudança real.

— O mercado está mais favorável ao carro usado — diz.

Na Caer, concessionária da Ford, as vendas de usados saltaram 20% de janeiro a setembro, ante igual período de 2014. E houve alta de 6,5% na saída de novos. Hermon Fontoura, gerente comercial do grupo, explica que há maior demanda por carros mais econômicos e, em paralelo, queda na procura pelos modelos top.

— Ajustamos nossos estoques, apostando nos carros de maior vendagem, que custam até R$ 55 mil. A oficina está mais cheia, sinal de que o cliente está prolongando o uso do carro.

Enquanto sobram unidades da maioria dos modelos, alguns poucos têm fila de espera. Em maio, havia longa espera pelo Jeep Renegade e pelo Honda HR-V. Hoje, é mais fácil achar o Jeep. Mas para o HR-V a espera ainda pode chegar a três meses.

O mesmo não acontece com outras marcas. Seja por menor procura ou porque operam em rede e compartilham estoques, nas concessionárias de Hyundai, Citroën, Volks e Chevrolet procuradas, não havia modelos em falta, à exceção de casos pontuais (como algumas cores).

Na Azurra, por exemplo, não há Fiat Grand Siena ou Dobló para pronta entrega. Mas é possível recebê-los em até 15 dias. Na Caer, há todos os modelos. Um Ford Focus top de linha branco tem na loja, mas para azul ou vermelho é preciso esperar até 40 dias.

Fonte: O Globo